Duras

Está pousado no estirador, mesmo ao meu lado. Um diário. Não resisti a espreitá-lo.

“Encontrei este diário em dois cadernos dos armários azuis de Neauphle le Château.

Não me lembro de o ter escrito.

Sei que o fiz, fui eu que escrevi, reconheço a minha escrita e os pormenores daquilo que conto, volto a ver o local, a gare de Orsay, os trajectos, mas não me vejo a mim a escrever este Diário. Quando é que o escrevi, em que ano, a que horas do dia, em que casa? Já não sei nada.

Não me parece pensável-e isso é certo, evidente-que possa ter escrito este texto enquanto esperava por Robert L.

Como é que pude escrever esta coisa a que ainda não sei dar nome e que me apavora quando a releio. e como é que pude deixar ficar este texto tantos anos abandonado naquela casa de campo que regularmente se inunda no Inverno.

A primeira vez que me lembrei dele foi porque a revista Sorcières me pediu um texto de juventude.

A Dor é uma das coisas mais importantes da minha vida. A palavra “escritos” não seria adequada. Encontrei-me frente a páginas regularmente cheias de uma letra pequena extraordinariamente regular e calma. Encontrei-me frente a uma fenomenal desordem do pensamento e do sentimento, em que não ousei tocar-e face a ela, a literatura envergonha-me” 

“A Dor” de Marguerite Duras, edição Difel, 1985.

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