O Burlington Northern no sentido norte-sul

“Chamava-se Christine. Ele não sabia como lhe falar, por isso escreveu-lhe um poema em que a comparava ao comboio Burlington Northern que partia de Fort Collins no sentido norte-sul. Contou-lhe como costumava pôr-se de pé nos carris, no encandeamento dos faróis. Gostava de se afastar e pôr-se na beira das travessas para sentir o estrondo nos seus ossos. Entre o estremecimento do betão e a sua alegria, a locomotiva deixava-o quase de rastos. A palpitação do diesel que sentia na barriga desvanecia-se até ser apenas ruído, momento em que se sucediam as carruagens – algumas a chiar dos amortecedores – fazendo clataclat clataclat. Escolhia uma carruagem ao acaso e, dando uma corrida, subia a bordo pelas escadinhas. Sentiria então a aragem da noite no cabelo, e as carruagens mais próximas teriam a sua própria música, um ritmo que nunca poderia escutar se permanecesse junto aos carris enquanto elas passavam. A buzina soaria no último cruzamento, uma canção doce como o jazz. Aí, mesmo a cinquenta carruagens de distância, sentiria a vibração da locomotiva penetrá-lo. Sonhava por momentos em que se agarrar, em seguir na plataforma de engate pela noite fora, esperando longas horas, penosamente acaçapado, até ao dia lhe mostrar os montes ruivos do Novo México e o cheiro a zimbro no ar. Deixava então o sonho para reparar na velocidade a que as travessas voavam a seus pés. Inclinava-se para sentir o vento nos arredores da cidade e lançava-se no vazio, aterrando em corrida com uma trepidação que lhe percorria a espinha, um choque que sentia como um clarão branco e uma sensação eléctrica na boca, após o que corria e corria às cegas, tropeçando por vezes no cimento e esfolando os nós dos dedos ou batendo com o joelho. Quando conseguia finalmente parar, punha-se à escuta do fluxo de sangue nos ouvidos ao mesmo tempo que sentia o comboio acelerar e afastar-se, e ficava a observar a rotação das estrelas, e quando regressava a casa, era com campainhas nos ouvidos, mas suaves.

Tentou captá-lo no poema. Tinha quatro páginas e terminava:

Quero levar-te a casa, Christine, 

e mais além. Quero levar-te por

madrugadas bruscas, frias e azuis

e nunca percorrer o mesmo carril duas vezes.

Nunca teve notícias dela, nem sequer para confirmar que tinha recebido o poema. Afinal, que mulher gosta de ouvir dizer que é parecida com o Burlington Northern no sentido norte-sul?”*

Eu gostaria, mesmo muito e talvez também desaparecesse por ter gostado tanto.

* conto “O Burlington Northern no sentido norte-sul” em “Pequenos Mistérios” de Bruce Holland Rogers, edição Livros de Areia, 2007.

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