GRITO

Observo a ventoinha pendurada numa das estantes da Pó e fico a pensar se coloco o pescoço a jeito ou se dou com ela na cabeça de alguém.

Não quero viver assim, estou exilada no meu mundo, leio as notícias porque há muito que não consigo ouvir aqueles gajos falarem, leio, achando que a ausência de som diminui a minha irritação, mentira, passo-me na mesma, não respiro, não quero viver uma vida de merda, praguejo, falo como um carroceiro, só tenho vontade de desatar ao soco aos filhos da puta que desgovernam este país, tento acalmar-me, não consigo, divago, imagino-me a fugir para Buenos Aires com o rapaz pequeno, penso nas livrarias, no Borges e no Bioy Casares, vejo filmes a preto e branco e fingo que não estou aqui, calo-me, torno-me ainda mais silenciosa. Calo-me e sinto o desconforto, eu sou silenciosa, sozinha e silenciosa, mas este não é o meu silêncio, sinto o desconforto porque calo palavras que não pronuncio, para fingir, para me manter calma. Depois lembro-me que não vou fugir para lugar nenhum, não posso, o rapaz pequeno não nasceu de geração espontânea, nem por obra e graça do senhor, foi sexo mesmo, tem um pai aqui, noutra casa, mas aqui e NÃO QUERO, lembro-me que não quero, gosto de viver no meu bairro modernista, de ser livreira na Pó, de desenhar sentada no estirador, de andar a pé pela cidade, às vezes sorridente, outras neurótica, lembro-me como gosto de andar aqui, sou daqui e repito não quero! Grito até à exaustão que não quero e volto aos insultos, sei que não me vou calar, salta-me a teimosia, o mau génio e a arrogância, agarro-me à fúria e embarco, não quero viver uma existência de merda e não quero que o rapaz pequeno viva assim, não aceito que nos obriguem a viver enclausurados numa “revista portuguesa” de mau gosto, injusta, miserável, fascista, moralista, bacoca, ignorante, não quero viver rodeada de mãos estendidas, pedintes, de favorzinhos, sem direitos e sem garantias, acossada por um bando de cabrões, fanáticos, lunáticos, acólitos de uma ideologia “direitosa” e perigosa, embrulhada nos números do quadro de excel debitados por um soporífero, lambuzada de amigalhaços, lambe-botas, “senhores doutores” do rancho folclórico, estúpidos, desonestos, palhaços. Não quero e não me calo, isto vai correr mal, já sei, mas escolho gritar, enquanto correr mal grito, quando tudo estiver bem (se é que esse dia existe) calo-me, nesse dia regresso ao meu silêncio e posso voltar a ser uma verdadeira Bartleby. Até lá escolho gritar!

5 thoughts on “GRITO

  1. Escreve muito bem. Também penso assim, mas não escrevo tão bem. É uma sensação de incapacidade, o que fazer para acabar com esta desgovernança? Gosto muito do blog e aproveito para tirar ideias de livros.
    obrigada
    dora

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