novamente o divino marquês

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Pensador temível, porque intransigente e lúcido, escreve à mulher em 20 de Fevereiro de 1781:”Tenho a desgraça de haver recebido do céu uma alma firme que nunca se soube dobrar e nunca se dobrará(…) Sim, sou libertino, confesso-o; concebi tudo quanto se pode conceber neste género, mas nunca fiz seguramente tudo o que concebi e seguramente nunca o farei. Sou um libertino, mas não sou um criminoso nem um assassino, e visto me forçarem a colocar a minha apologia ao lado da minha justificação, direi pois que possivelmente os que me condenaram tão injustamente como eu o fui, não conseguirão sequer contrabalançar as suas infâmias com boas acções tão manifestas como as que eu posso opor aos meus erros; e em princípios de Novembro de 1783: ” A minha maneira de pensar, diz, não pode ser aprovada. E que me importa? Bem louco é aquele que adopta uma maneira de pensar para agradar aos outros! A minha maneira de pensar é fruto das minhas reflexões; pertence à minha existência, à minha organização. Não sou senhor de a mudar; e, fosse-o eu, não o faria.Esta minha maneira de pensar que reprova é a única consolação da minha vida; atenua todos os meus sofrimentos na prisão, constitui todos os meus prazeres no mundo e quero-lhe mais do que à vida. Não foi a minha maneira de pensar que fez a minha desgraça, foi a dos outros(…) Se, pois, como diz põem a minha liberdade ao preço do sacrifício dos meus princípios ou dos meus gostos, podemo-nos, portanto, dizer um adeus eterno, porque sacrificaria, em vez deles, mil vidas e mil liberdades, se as tivesse (…)“*

Depois de ler alguns excertos das cartas de Sade na excelente apresentação desta antologia – “Os Melhores Contos de Marquês de Sade”, editada pela Arcádia em 1970 (*daqui), lembrei-me que há muito tempo tinha tido nas mãos um livro com a selecção de algumas das cartas da prisão. Umas pesquisas mais tarde, sim confirmou-se, não era imaginação minha, o livro existia, é da Frenesi e tem como título: “Em Duas Palavras o Que Sou – algumas cartas da prisão”, estou a lê-lo, claro. Se sempre gostei do que o divino marquês escreveu, nos dias que correm as suas palavras fazem-me cada vez mais sentido.

Nota para leituras futuras (tradução: para quando houver pecúlio para livros outra vez…): “Sade, meu próximo” de Pierre Klossowski, Vega.

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