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“Sigo com o João Rodrigues pela rue de l’Odéon, em Paris. Deve fazer calor porque estamos ambos em mangas de camisa. De súbito, ao passar diante de uma livraria, somos atraídos por grandes risadas. Disponho-me imediatamente a entrar na loja, mas o João não quer. Segura-me no braço e diz-me: “É muito tarde”.
Entro sozinho e constato que não se trata de uma livraria, mas de um espaçoso atelier de costura. Agrupadas em volta de grandes mesas, manipulando tecidos, muitas mulheres riem-se às gargalhadas.
Um tanto envergonhado, reparo numa coisa insólita: num manequim cheio de agulhas espetadas, ostentando uma verdadeira cabeça de mulher, de cabeleira suja, desalinhada, e uns olhos que se fecham e abrem, e quando estão abertos me fitam.
A cena muda e agora estou deitado numa cama. Recebo a visita do manequim que se aproxima e me recrimina por não ter voltado a visitá-lo. Depois desaparece. Fico a aguardar febrilmente a claridade da madrugada. Ao amanhecer, chove a cântaros, mas não quero saber: levanto-me e encaminho-me para o atelier. Quando lá chego, é muito cedo, não está ninguém, a não ser uma empregada de limpeza, que varre o chão com gestos cansados e desolados. Pergunto-lhe pelo manequim; sem dizer nada, a mulher aponta para um armário. Corro a abrir-lhe os batentes. O manequim ali jazia, mas sem cabeça, sem pernas, sem vida.
A cena volta a mudar. Agora encontro-me numa escadaria que dá para o vazio. Sinto que alguém me toca no ombro; volto-me e vejo um homem novo, pobremente vestido, que me diz: “Amo uma mulher, mas ela não gosta de mim…” Incomodado, só penso em afastar-me. A escadaria transformou-se num tapete rolante. Desço no sentido inverso ao do seu movimento e acabo por cair de uma das janelas da estação do Rossio e mergulhar num rio. A água dá-me pela cintura. Tento sair, agarrado aos arbustos da margem, e depois vejo-me numa casa onde vivi no Porto, diante de um armário que ostenta o seguinte letreiro: “propriedade do Marquês de Sade”. 7 de Agosto de 1992.”

O segundo de “Três Sonhos” em “Feriados Nacionais” de Ernesto Sampaio, Fenda 1999.

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