do viver

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Empurrada pela sacanagem, rodeada pela banalidade do nojo, em constante estado de apneia, com “uma força a crescer-me nos dedos e uma raiva a nascer-me nos dentes”*, os dias correm assim numa espécie de guerra eminente, salvam-me os livros, os papéis desenhados e a poesia, também o amor.

“Quero que se foda o sublime. A minuciosa construção do absoluto literário. Assim sem emendas e em rigoroso vernáculo, parece-me mais exacto. Quero que se foda o sublime (desculpem-me a repetição). Prefiro portas fechadas, casas destruídas, chaves de pouco ou nenhum uso para gestos de pouca ou nenhuma glória que são o absoluto onde me posso sentar para beber mais um copo deste vinho que te pinta os lábios e te acende nos olhos esse fulgor de luz, esse pulsar de salto, onde me lanço para voltar ou não voltar, mas ter cumprido do sangue o impulso. Quero que se foda o sublime (começa a saber-me bem repeti-lo, o ritmo sincopado conjugado com a limpidez expressiva.) Estou a falar contigo, a viver contigo, a morrer contigo. Estou a dizer-te ama comigo, sofre comigo, morre comigo um pouco mais devagar.”

Jorge Roque em “A Canção da vida”, edição Averno 2012.

*da letra de “Que força é essa” de Sérgio Godinho

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