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“Uma vez, quando eu vivia junto ao Largo do Viriato, vi o jacarandá que lá está a florir. Pedi ao Régio que o viesse ver. “Não é a mim que eu peço que venha ver. É ao jacarandá.” Ele não apareceu. Pouco depois ficou muito doente e esteve internado num hospital para se curar; e dizia: “Isto aconteceu porque eu não fui ver o jacarandá em flor”.

Também pedi à Vieira que viesse conhecer o meu jardim, ela estava em Lisboa; e quando a Maria Helena adoeceu gravemente, eu pensei no Régio e fiquei meio assustada. Há na natureza uma eficácia que actua como uma lógica genuína. A intuição, por exemplo, é a lógica sem acessos. Mas Vieira da Silva atribui tudo a fenómenos biológicos. “O nosso organismo – diz – é como um campo de batalha; há nele sempre territórios desprevenidos, fronteiras sem guarda. E nada mais do que isso.” Não sei. Sei que o meu jardim tinha espécies raras que se perderam: a passionária, as clematites, a flor do tabaco, e outras. Agora, nem Maria Helena, nem ninguém, as pode ver mais aqui, e, assim, essas formas, que o espírito humano levaria ao extremo da sua expressão, morreram. Não as ver foi como matá-las, na verdade.

Uma longa vida não se descreve, ninguém a vê passar. Não é como uma carruagem que rola numa estrada, ou um astro fixo no céu. Está na pessoa, é o calor, o frio, os seus efeitos. A vida é o efeito de uma animação interminável, e a arte é a maneira de exprimir a vida despojando-a dos costumes”.

Agustina Bessa-Luís, “Longos dias têm cem anos – Presença de Vieira da Silva”img_20160818_142732

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